FRUSTRAÇÃO NA MEDIDA CERTA

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FRUSTRAÇÃO NA MEDIDA CERTA

Ao ler o título a pergunta que normalmente vem a nossa cabeça é: Existe uma medida certa para frustração? E a resposta é sim. E além de haver uma medida certa, a forma como lidamos com ela vai interferir diretamente em nossa vida.

A princípio pode parecer incoerente, mas todos nós temos que lidar com certa quantidade de frustração. Quando não nos frustramos acabamos desenvolvendo uma personalidade mais narcisista, onde o eu é muito mais importante que o coletivo, podemos tudo o que queremos, desejamos e temos, não conhecemos limites, é como se fossemos pequenos deuses na terra.

Agora olhemos para a sociedade atual. Como pais, não queremos que os filhos se frustrem, fazemos tudo por eles, parte em função do sentimento paternal que é fortíssimo, parte em função de sentirmos certa culpa por não conseguirmos dedicar todo o tempo que gostaríamos a eles entre outras coisas.

Normalmente todo esse zelo vem acompanhado de frases como “eu quero o melhor para meu filho”, “não quero que ele passe pelo que eu passei” entre outras, essas frases servem para tentar legitimar nossas ações para com nossos filhos e poucos são aqueles que as questionam.

Os pais realmente tem que buscar o melhor para seus filhos, essa é uma das funções básicas daqueles que se dedicam a cuidar de crianças e quando elas nos pedem com aqueles olhinhos lindos e cheios de ternura nos esforçamos ainda mais para atender o que pediram. Também existem os momentos em que temos que repreendê-los e o fazemos com o coração apertado ao receber esses olhares que nos tocam profundamente. Essas situações ajudam em muito a seguirmos pela busca incessante de minimizar as frustações desses pequenos anjos.

Neste momento você pode estar se perguntando qual é exatamente o problema de minimizarmos ao máximo as frustrações de nossos filhos e digo que as consequências disso podem refletir de uma maneira ruim por toda a vida deles.

Quando não os ensinamos a lidar com as frustrações eles desenvolvem uma personalidade mais egocêntrica, onde não toleram as frustrações e fazem de tudo para evitá-las. Agora imagine essa personalidade em um casamento, onde além da própria personalidade temos que lidar e também dar voz para o(a) companheiro(a), que também é um indivíduo com vontades, necessidades, personalidade e faz parte dessa instituição que chamamos de casamento. Neste momento estamos falando de duas pessoas, que tem vontades e necessidades, que precisam se expressar, existir como indivíduo e que podem divergir entre si. Se não houver um nível aceitável de tolerância às frustrações, o relacionamento acaba se tornando insustentável e as separações acabam por ocorrer. Agora some a esse quadro o nascimento dos filhos, que também terão vontades, necessidades e individualidade a expressar, nesse contexto manter um casamento virou praticamente um trabalho de Hércules*.

Além do relacionamento posso citar outro exemplo que muitos de nós conhecemos, imagine o ambiente de trabalho, em que temos que lidar com hierarquia, superiores que muitas vezes tomam decisões que fazem parte do dia a dia de uma empresa, entretanto não nos agrada, como lidar com casos assim se não aprendemos a lidar com frustração? Vamos ficar pulando de um emprego para outro? Tornando-nos profissionais do tipo “pipoca” que não inspira segurança para as empresas em um trabalho contínuo? Isso pode ser considerado sucesso profissional?

Notem que eu citei apenas dois exemplos que sofrem interferência direta de não saber lidar com as frustrações, mas existem muitas outras visto que somos seres que vivemos em sociedade onde o convívio é constante.

Da mesma forma que frustração de menos tem seus problemas, a frustração em excesso também os traz. Como falei anteriormente temos necessidades e individualidades que precisam ser expressas e se formos castrados demais consequentemente o nível de frustração se elevará e acabaremos entrando numa busca desesperada para, de alguma forma, atendermos nossos desejos.

Imagine aquela criança que vive na rua, passando fome e frio, vivendo em uma sociedade que prega o tempo inteiro que temos que realizar nossos desejos, essa criança vive em condições que não lhe permitem realizar nem as questões mais básicas como alimentação, quanto mais ir além, pensando na realização de desejos. Naturalmente surgirá nela uma necessidade de conseguir o que deseja a qualquer custo e ela pode chegar ao ponto de se tornar violenta na busca da realização desse desejo.

Com vistas no lido da frustração e olhando nossa sociedade atual, com famílias instáveis, um número cada vez mais crescente de separações, falta de respeito e ética nas relações humanas, violência geral nas ruas, entre outras coisas temos sinais que nosso modelo de sociedade está falhando na formação de seus indivíduos o que acabará nos levando a falhar como sociedade.

Dessa forma, percebemos que precisamos nos questionar a respeito do pensamento comum de que “quanto mais, melhor” e dar mais atenção ao equilíbrio que é tão necessário até mesmo nas situações que parecem negativas num primeiro olhar.

Paz e Luz

* Hércules é conhecido na mitologia grega por realizar doze tarefas que são consideradas de extrema dificuldade.

Autor: Valter Cichini Junior – Psicanalista e Coaching

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